Esse projeto se iniciou com um briefing a fim de se chegar em um problema a ser resolvido. E após pensar em alguns temas, cheguei em algo que é tão atual e necessário: resolvi falar de negritude!
Segundo o Ministério da Saúde e da UnB (Universidade de Brasília), a cada dez jovens que se suicidam no Brasil, seis são negros.
Com base nesse dado, diálogos com amigos e assuntos tratados em redes sociais passei a ter algumas hipóteses e observações:
- O aumento da discussão sobre depressão entre pessoas negras.
- Frequência de notícias sobre suicídio de homens jovens negros.
- O genocídio de corpos negros no Brasil.
- Empresas ampliando sua cultura de diversidade.
- Mídia abordando com mais frequência sobre o racismo.
- Autores negros ganhando destaque notório.
Com estes pontos, passei a ler mais dados já existentes como artigos, livros, ouvir podcasts e assistir documentários para aumentar o meu leque de informações.
Evidências
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 54% da população brasileira é formada por negros. E quando olhamos para o mercado de trabalho e espaços de poder na sociedade não enxergamos o reflexo desta maioria.
Ao não se verem representados, muitos negros passam por um processo de negação e um desejo de embranquecimento, gerando problemas de autoestima, por exemplo. (Veja Saúde)
Um outro ponto importante a se analisar, é que no Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. “É evidente que, para um jovem negro, viver num país racista como o nosso tem efeitos nocivos sobre sua saúde mental.” (Veja Saúde)
Reunindo todos estas informações, comecei a ler mais sobre autores negros, portais de notícia, blog e encontrei informações para compor a minha revisão bibliográfica a fim de entender mais sobre negritude.
“O negro condena-se a negar-se como indivíduo para se afirmar socialmente” Neusa de Souza Santos em “Tornar-se Negro”.
“A consequência disso são fenômenos psíquicos, psicossociais e psicossomáticos para os indivíduos negros. São exemplos a depressão, as fobias, as ansiedades, a obesidade, os problemas de pele, a hipertensão, o alcoolismo, a gastrite, entre outros” Lucas Ludgero em “Sob a Pele”.
“É importante criar periódicos ilustrados destinados especialmente aos negros, canções para crianças negras, até mesmo livros de história, pelo menos até a conclusão dos estudos. Pois, até prova em contrário, estimamos que, se há traumatismo, ele se situa neste momento da vida” Frantz Fanon em “Pele Negra Máscaras Brancas”.
Após estas pesquisas (e muito soco no estômago), levantei o seguinte problema:
Como eu poderia, através da tecnologia, auxiliar pessoas negras no processo de autoconhecimento, aceitação e sobretudo curar em si alguns danos causados pelo racismo?
A fase de pesquisa
Após coletar dados secundários em bibliografias, sites e artigos, foram levantadas algumas dúvidas e pontos a se conversar com pessoas para identificar suas dores e necessidades.
Para isso, foi realizada uma pesquisa quantitativa através de formulário online e, depois, pude recrutar algumas pessoas para uma pesquisa qualitativa através de entrevista em profundidade.
Estas pesquisas tiveram como objetivo:
- Coletar informações de perfil do público-alvo.
- Compreender contexto e cenário dos entrevistados.
- Entender o impacto do racismo na vida dos negros.⠀
Questionário online
Para esta pesquisa elaborei um questionário com objetivo de filtrar os entrevistados para diálogos futuros. O formulário foi disparado em grupos de whatsapp, twitter e de movimentos sociais durante os dias 22 de Agosto de 2020 a 02 de Setembro de 2020 e obteve 57 respondentes.
As perguntas foram divididas em 7 blocos. O primeiro teve por objetivo separar o público entre quem se identifica como negro ou não.

O segundo bloco contemplou perguntas mais demográficas, como: idade, gênero, estado, grau de escolaridade, profissão, faixa salarial e com quantas pessoas mora. Abaixo os gráficos e comentários de algumas informações obtidas:

- Os respondentes têm entre 17 a 59 anos, sendo a maioria na faixa entre 20–30 anos.
- A pesquisa contou com 62,5% de pessoas do gênero feminino.
- Cerca de 94% dos respondentes são da Região Sudeste.
- 73% dos respondentes estão no universo acadêmico, sendo que 46,4% representa o Superior Incompleto.
- A questão profissional é bem ampla. Foram entrevistados advogados, autônomos, copeira, designers, estudantes, trancistas e vendedores e militares.
- Em relação a faixa salarial observei dados como: 30,4% (16 pessoas) têm renda entre R$ 1.500,00 a R$ 2.999,00 e 14,3% não possuem renda alguma.
Depois de fazer essas perguntas iniciais, parti para perguntas mais específicas sobre negritude e aos poucos fui me aproximando de questões mais polêmicas sobre o racismo:

Em sequência, perguntei:

E para finalizar pedi que os entrevistados categorizassem de 1 a 10 algumas pautas de assuntos do movimento negro de acordo com a sua visão de importância e relevância, chegando na seguinte escala:

Entrevista em profundidade
Para ter mais conhecimento sobre estudo, agrupei todas as informações, filtrei os entrevistados a partir da pesquisa quanti citada anteriormente e selecionei 5 pessoas para uma conversa mais profunda.
Esta parte do projeto teve como objetivo identificar as questões que mais afetam a saúde mental do negro, e a partir disso buscar formas de como auxiliar na melhoria de algumas dessas dores.
As perguntas foram divididas em blocos intitulados como “quebrando o gelo”; “apresentação da pessoa”; “entrando no assunto racial”; e “saúde mental”. Chegando a algumas falas abaixo:

O processo de entrevista em profundidade deste projeto foi imensamente pesado, denso, complexo e ao mesmo tempo acolhedor. Eu e meu mentor em diversas reuniões debatemos os pontos levantados e chegamos a algumas conclusões por conta dos relatos nas entrevistas:
- Os entrevistados possuem diversas feridas causadas pelo racismo.
- Eles sentem vontade de fazer terapia mas nunca fizeram por falta de dinheiro ou por falta de reconhecimento.
Eis que surgiu o insight:
“Como aproximar essas pessoas negras de terapeutas negros?”
Foi aí que então eu precisei dar um passo atrás e recrutar profissionais psicólogos negros e negras para uma conversa obtendo as seguintes falas:

Definição
Após tabular todas as entrevistas, reunir os pontos em comum e organizar as informações, pude então sintetizar todas essas informações para construir duas personas para o projeto, gerando empatia e proximidade:


Olhando para o mercado
Após chegar a ideia da solução e construir as personas, precisei me virar para o mercado e entender melhor o que há de existente na área de terapia online.
Através desta análise pude conhecer 4 concorrentes da minha plataforma, sendo 2 indiretos e 2 diretos.
Em relação aos dois primeiros, pode-se observar um acolhimento muito forte da comunidade negra, porém de forma alternativa e sem muita organização. Enquanto os outros dois são mais mercadológicos, livres e independentes.
Veja abaixo um comparativo desses concorrentes:

⠀User stories
Como forma de orientar os próximos passos do projeto elaborei uma documentação com as u.s., contemplando as principais tarefas e cenários dos usuários pacientes e terapeutas. Que seria basicamente:
“Eu, enquanto usuário, quero encontrar um terapeuta negro que possa me atender de forma segura, confiável e econômica”.
Para isso, este usuário deveria ter uma apresentação do produto, se autenticar, ter processo de busca, visualizar perfil dos profissionais disponíveis e acessar as compras de sessões.
“Eu, enquanto psicóloga, quero utilizar esta plataforma para auxiliar pessoas negras que buscam ajuda psicológica e com isso aumentar minha cartela de pacientes”.
Para isso, este usuário deveria ter uma apresentação do produto, se autenticar, criar seu perfil profissional, visualizar os pacientes e receber pelos atendimentos.
Através das etapas levantadas pude avançar com as etapas contempladas pela plataforma e ter uma visão mais tangível daquilo que eu iria produzir.
Ideação
Após as estórias apresentadas anteriormente cheguei na etapa de definir o site map e fluxo dos usuários conforme imagem abaixo.

Tirando do papel e ganhando vida
Após a criação do sitemap e definição dos fluxos, comecei a desenhar os rascunhos daquilo que eu imaginava para a plataforma.
Com estes desenhos pude pensar elementos como a página principal, a área de acesso e os cards de apresentação dos usuários.

E após desenhos fui para o Figma começar a pensar o wireframe, a posição dos componentes e como ficaria em baixa fidelidade a interface do meu projeto.
Projetar as ideias em wireframe foi uma etapa muito importante, pois consegui antecipar diversos cenários de erro que foram sendo validados durante as mentorias.

E depois de todas essas etapas surgiu a Ponte, uma plataforma que une pessoas negras a terapeutas negros.







Guia de estilo

Utilizei as tipografias Poppins e Quicksand para o projeto, sendo duas fontes de boa leitura e visibilidade.
A paleta de cores composta pelo rosa e azul foi escolhida a fim de trazer proximidade e confiança.
Os demais componentes como nav bar, menu, botões, campo de texto, modal foram criados já com base no que é comumente usuário nos padrões de interface.


Medindo resultados
Imaginando um cenário a longo prazo é importante levar em consideração o comportamento dos usuários e medir alguns dados em relação a engajamento e conversão.
Para isso defini alguns parâmetros de sucesso do produto, sendo:
Monitorar a taxa de cadastro de usuários
Retenção dos usuários
Quantidade de usuários ativos
Quantidade de atendimentos realizados
Taxa de abandono
NPS